Michelle Obama lidera campanha contra obesidade infantil nos EUA - 23.11.2010

O problema atinge um em cada três crianças americanas. Nessa luta, ela conseguiu o apoio de indústrias responsáveis por ¼ da comida produzida no país. Na Casa Branca, ela cultiva uma horta para incentivar a campanha.

Na terra da liberdade, encontramos conforto, fartura e um novo inimigo sedutor e poderoso que já atacou mais da metade da população. De cada três americanos, dois estão acima do peso. O Brasil se encaminha para atingir essa marca em dez anos. Mas os brasileiros que foram para os Estados Unidos já conhecem bem essas estatísticas.

A dona de casa Jaqueline Guimarães conta que pesava 55 kg quando chegou aos EUA. Hoje, ela está com 70 kg. Ao todo, ela ganhou 15 quilos em um ano, e eles não foram mais embora. Na casa de Jaqueline e Elton, perto de Boston, a mesa brasileira, com arroz, feijão, bife e salada, é cada vez mais rara. “Quando você chega ao mercado, é tudo muito bonito. Você olha e dá até água na boca. Você quer comprar”, diz o pavimentador Elton Guimarães.

Biscoitos, marshmallows, chocolates: uma festa para os desejos de crianças e de adultos. “São coisas que os meus filhos gostam e que eu gosto também. É barato, muito barato. Aqui, é tudo acessível para a gente”, declara a brasileira.

É a poderosa tentação do sabor, uma armadilha que já pegou 190 milhões de americanos. A Universidade de Harvard, indicada este ano mais uma vez como a melhor do mundo, entrou na luta nacional contra o que já se chama de epidemia de obesidade.

O professor Walter Willet é um dos maiores pesquisadores em nutrição da universidade. Para ele, adultos jovens como Elton e Jaqueline devem ter atenção redobrada. Lutar contra a balança depois dos 35 é bem mais difícil.

“Evitar engordar na meia idade é muito importante. É bom manter o ganho de peso o mais lento possível, porque isso acaba em diabetes, ataque do coração e muitos tipos de câncer”, aponta o nutrólogo.

São doenças que levam as pessoas para os hospitais e que sobrecarregam as despesas do país com saúde. A epidemia de obesidade custa aos americanos US$ 147 bilhões por ano. Por isso, quem tem a chave do cofre também está preocupado. Batemos na porta do endereço mais famoso do país: a Casa Branca. A visita é rara. Só duas vezes por ano, os americanos podem entrar e conhecer os recantos construídos pelas primeiras-damas: uma tradição na Casa Branca.

Chegamos ao jardim da Jaqueline Onassis, onde ela gostava de ficar. Depois, vamos ao jardim da Michelle Obama. Só que no caso da atual primeira-dama, ela preferiu não fazer um jardim. Ela fez uma horta.

Em vez de rosas e hortências, o jardim de Michelle tem abóboras, nabos, alfaces. A senhora Obama lançou, este ano, uma campanha nacional contra a obesidade infantil, problema que já atinge uma em cada três crianças nos Estados Unidos.

“Isso é um assunto de grande preocupação para mim, não somente como primeira-dama, mas como mãe”, declara Michelle Obama.

Acabar com o problema em apenas uma geração, mudar a comida nas escolas e nos pequenos mercados, aumentar a oferta de verduras, frutas e legumes: a primeira-dama americana sabe que é um desafio gigantesco.

“Nem sempre eu vivi na Casa Branca. Não muito tempo atrás, eu era uma mãe trabalhadora, cheia de compromissos. Havia muitas noites em que eu chegava em casa tão cansada e faminta que só queria comprar uma comida rápida e barata, até que um dia, felizmente, o pediatra das minhas filhas me puxou para o lado e disse: ‘você deve tentar fazer as coisas de uma forma diferente’. Foi a minha hora da verdade. E agora é a hora da verdade para o nosso país”, explica Michelle.

As coisas na Casa Branca parecem estar mudando. Em um canto do pátio, nós achamos uma churrasqueira, meio abandonada. Mas já teve muito churrasco de presidente no local.

Michelle faz de tudo para chamar a atenção do país. Em sua cruzada contra a gordura, ela já conseguiu o apoio das indústrias responsáveis por um quarto da comida produzida no país. Enquanto o marido Obama luta para cortar despesas no governo, ela quer é cortar calorias. “Estas empresas garantiram que vão cortar um trilhão de calorias por ano da comida que vendem até 2012”, declara a primeira-dama.

Por isso, ela acha que fazer uma horta ao invés de um jardim na Casa Branca pode servir como exemplo para todo o país. Nós vamos para o fundo da plantação, longe dos olhos dos implacáveis seguranças. Não dá para entrar na mais bem guardada horta do mundo e sair de mãos abanando. O repórter Flávio Fachel encontra uma coisa que os americanos gostam muito, que são uns tomates pequenos e resolve provar.

O que sai da horta é servido nos banquetes dentro da Casa Branca e também doado a instituições de caridade, mas a comida saudável ainda é muito cara para os americanos. A comida industrializada é bem mais barata e cheia de atrativos, no cheiro, no sabor e na quantidade.

“Parece que você está no paraíso. Você chega no supermercado e vê tudo de bom, tudo de gostoso. Dificilmente, tem alguma coisa que não é gostosa. A comida americana em si é muito gostosa”, comenta o pavimentador Elton Guimarães.

Jaqueline mostra o que tem espalhado pelos armários: marshmallows, biscoitinho, waffle com chocolate. “É um chocolate em pó com marshmallow que faz um estrago também. No inverno, é uma delícia”, explica a brasileira.

Nas prateleiras dos mercados americanos, são 600 mil opções de alimentos à venda. Mas é uma falsa sensação de fartura, segundo o nutrólogo Walter Willet, da Escola de Saúde Pública de Harvard. Existem apenas 100 alimentos diferentes na natureza.

“Obviamente isso confunde qualquer um, com tantas escolhas diferentes. Mas a maioria tem os mesmos ingredientes básicos: amido refinado, açúcar, óleo vegetal e muito sal. Existem sabores diferentes, mas é tudo muito igual, infelizmente. Ao todo, 80% das comidas nas prateleiras americanas não fazem bem à saúde”, aponta o pesquisador.

Muito sal, açúcar e gordura: é uma combinação que pode viciar qualquer um, afirmam os especialistas. “Eu acho que se nós voltarmos para o Brasil hoje, vamos sentir muita dependência”, reconhece o pavimentador Elton Guimarães.

Uma vez que nós somos condicionados a um nível alto de doçura, é difícil apreciar o doce mais sutil de uma maçã ou de uma cenoura. E isso nos leva a buscar o tempo todo comidas e bebidas muito açucaradas”, destaca Walter Willet, de Harvard.
 

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